quarta-feira, 2 de agosto de 2017

DEPRESSÃO OU MELANCOLIA PÓS-PARTO?


Muitas mulheres as quais eu atendo no consultório engravidam durante o tratamento, já estão gestantes quando me procuram, ou necessitam de orientação após o parto. Em quaisquer das situações, o quadro geralmente é de sintomas depressivos; porém, nem sempre o diagnóstico é de depressão pós-parto como a maioria pensa, e sim uma condição bem mais prevalente chamada de melancolia puerperal, baby blues ou blues puerperal. Esse quadro se caracteriza por ser uma alteração transitória no humor após o parto que acomete cerca de 80% das mulheres. O quadro inicia três a quatro dias após o parto, desaparecendo espontaneamente em, no máximo, um mês.

Os sintomas mais comuns são tristeza, irritabilidade, ansiedade, choro fácil, indisposição, insegurança, baixa auto estima, sensação de incapacidade, preocupação excessiva em relação ao bebê e diminuição da concentração. Em geral, são leves com duração de apenas algumas horas a poucos dias. Esse quadro, provavelmente, se deve às alterações hormonais que ocorrem com toda mulher nessa fase, além de outras questões, como o estresse do parto e da consciência de responsabilidade aumentada. Além disso, a maioria das recém-mamães se culpa por estar se sentindo dessa forma, e isso agrava toda a situação.
Outra questão importante a ressaltar é que a maternidade é um momento de reviver a própria infância, principalmente a primeira, onde podem ter sido originados os grandes conflitos internos e as grandes inquietações da fase adulta. A maternidade é, na verdade, uma grande oportunidade para o crescimento psíquico. Entretanto, muitas vezes, o caminho é penoso e a psicoterapia faz-se necessária. Ela simboliza o morrer e o nascer novamente, e a restauração do ‘ego’ torna-se nesse momento imprescindível para que a mesma consiga seguir o seu caminho. Ser mãe possibilita a reelaboração de conflitos pessoais relacionados à história de vida. O apoio familiar, os grupos de apoio ao pós-parto e os profissionais especializados podem ajudar muito nesse momento.
O tratamento ideal é multidisciplinar. Algumas atitudes de amigos e familiares são igualmente importantes, tais como limitar o número de visitas, incentivar o descanso e auxiliar nas tarefas de casa. Brigas e discussões devem ser evitadas. A melancolia pós-parto não é frescura ou fraqueza, e sim um comportamento involuntário que precisa ser respeitado e tratado com muito cuidado e afeto. Em relação à depressão pós-parto, inicia-se dentro de três a seis meses após o parto e costuma acometer mães que já têm antecedentes psíquicos. Os sintomas, apesar da semelhança com o baby blues, são mais intensos, duradouros e incapacitantes, podendo ser acompanhados de psicoses, como pensamentos bizarros e paranóides. Nesse caso, além da psicoterapia e de outras medidas, a medicação torna-se necessária.
Acredito que toda gestante deveria realizar o rastreamento para doenças psíquicas já na primeira consulta pré-natal, isso diminuiria sobremaneira o risco de um prognóstico negativo diante de sintomas depressivos após o parto. Ao menor sintoma psíquico após o parto, ou se já existe histórico psiquiátrico, ou até mesmo se a própria infância foi vivenciada com traumas e más recordações, procure um psiquiatra. Ele certamente saberá elaborar o melhor tratamento.

https://revistabemestar.com/2017/07/31/depressao-ou-melancolia-pos-parto/

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