quarta-feira, 23 de março de 2016

O filme 50 tons de cinza!

Há poucos dias assisti ao filme "50 tons de cinza", um dos livros cuja trilogia foi escrita pela autora Erika Leonard ou E.L.James. Minha primeira surpresa foi o fato de o filme ser descrito por muitos como um "Romance", aliás a estréia se deu no dia dos namorados. Mas então? "Romance", fora do campo literário, não seria um caso de amor ou uma situação que envolve pessoas apaixonadas? Não seria uma história em que há respeito entre os pares e em que jamais fariam mau ao outro de forma deliberada ou pelo menos sem intenção de ferir?? O filme 50 tons de cinza não é um romance e poderia até ser classificado como filme de terror, na minha opinião. Mas enfim, minha preocupação é de como as pessoas, principalmente os jovens, irão absorver e entender essa história. Fico pensando se os milhares de telespectadores entendem que o conteúdo desse filme é extremamente tóxico para a mente. Me preocupa o fato de uma história triste, bizarra e doentia, como mostra de forma estereotipada a relação sadomasoquista entre Grey e Anastásia, está sendo contada e vista por muitos como uma história romântica e excitante. Percebi algumas pessoas maravilhadas e deslumbradas mas, certamente com a beleza dos atores e sua nudez explícita, com os carros luxuosos, com o dinheiro empreendido de forma ostentadora e indispensável e não com o conteúdo do filme em si, a não ser que estejam doentes como estão os personagens principais da história. A relação sadomasoquista em qualquer de seus " espectros" é doentia, perigosa, tóxica e intensamente abusiva sob o ponto de vista físico e emocional. O glamour com que essa relação é apresentada ao público não pode anular o conteúdo perigoso do filme. As pessoas precisam saber que esse tipo de relação não tem nada de glamouroso, pelo contrário, é extremamente prejudicial e perverso. São impulsos perversos. Segundo Kaplan e Sadock, o masoquismo e o sadismo sexual são parafilias, expressões anormais da sexualidade, que podem variar de um comportamento " quase normal" a um comportamento destrutivo ou danoso somente para a própria pessoa (quando fica apenas na fantasia, não envolvendo uma segunda pessoa) ou também para o parceiro, até um comportamento considerado destrutivo ou ameaçador para a comunidade como um todo. Pessoas que se reconhecem com tais comportamentos precisam realizar avaliação mental minunciosa com psiquiatra ou psicólogo e iniciar tratamento o quanto antes. O tratamento para parafilias, que para mim, deveria ter sido o desfecho do filme, Gray e Anastásia em tratamento, incluem cinco tipos de intervenção: controle extremo (informar familiares e orientá-los acerca dos riscos e a não oportunizar situações de risco para o paciente), redução dos impulsos sexuais (com medicações que diminuem o nível de testosterona, por exemplo), tratamento de condições co-mórbidas (depressão ou ansiedade com antidepressivos, por exemplo), terapia cognitivo comportamental (para interromper padrões parafílicos aprendidos e modificar comportamentos para torná-los socialmente aceitáveis) e psicoterapia dinâmica (menos intensa e geralmente mais breve se comparada à psicanálise, dando mais atenção a dinâmica da relação entre paciente e terapeuta). Enfim, espero que ao assistir ao filme as pessoas percebam que Anastásia e Grey estão mentalmente gravemente doentes e que necessitam de ajuda especializada. 

segunda-feira, 7 de março de 2016

Conceito de normalidade!



Muitas pessoas se perguntam o que é ser "normal"?  Essa questão é muito controvérsia. Na verdade existem diversos critérios a serem avaliados para que se possa definir a normalidade. Tudo depende do objetivo que se tem em mente, das opções filosóficas disponíveis e dos fenômenos específicos com os quais se trabalha. No livro " psicopalologia e semiologia dos transtornos mentais", de Paulo Dalgalarrondo, os critérios de normalidade estão muito bem definidos. Resumo-os da seguinte forma:
1- Normalidade como ausência de doença: normal do ponto de vista psicopatológico, seria o indivíduo que não é portador de um transtorno mental definido...
2- Normalidade ideal: a normalidade aqui é tomada como uma certa utopia. Tal norma é de fato socialmente constituída e referendada. Depende, portanto, de critérios socioculturais e ideológicos arbitrários, e, às vezes, dogmáticos e doutrinários...
3- Normalidade estatística: identifica normalidade e freqüência. Trata-se de um conceito de normalidade que se aplica especialmente a fenômenos quantitativos, com determinada distribuição estatística na população geral, como peso, altura, tensão arterial, horas de sono, quantidade de sintomas ansiosos e etc. Os indivíduos que se situam estatisticamente fora de uma curva de distribuição normal, passam a ser considerados anormais ou doentes...
4- Normalidade como bem estar: A OMS definiu a saúde como completo bem estar físico, mental e social... É um conceito vasto e impreciso, pois bem estar é algo difícil de se definir objetivamente. Além disso, parece um tanto utópico...
5- Normalidade funcional: tal conceito baseia-se em aspectos funcionais e não necessariamente quantitativos. O fenômeno é considerado patológico a partir do momento em que é disfuncional, produz sofrimento para o próprio indivíduo ou para o seu grupo social...
6- Normalidade como processo: aqui consideram-se os aspectos dinâmicos de desenvolvimento psicossocial, das desestruturar e das reestruturações ao longo do tempo, de crises, de mudanças próprias a certos períodos etários....
7- Normalidade subjetiva: é dada maior ênfase à percepção subjetiva do próprio indivíduo em relação a seu estado de saúde, às suas vivências subjetivas....
8- Normalidade como liberdade: Alguns autores de orientação fenomenológica e existencial propõe conceituar a doença mental como perda da liberdade existencial. Dessa forma a saúde mental se vincularia às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo sobre o próprio destino....
9- Normalidade operacional: defini-se o que è normal e o que é patológico e busca-se trabalhar operacionalmente com esses conceitos, aceitando as consequências de tal definição previa...

Então, de acordo com Paulo, de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de doença em psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenômenos específicos com os quais se trabalha e, também, de acordo com as opções filosóficas do leitor...

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